A ÉTICA E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO HOJE

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Ressaltemos desde o inicio: A ética é uma questão absolutamente humana! Porque a ética tem um pressuposto: a possibilidade da escolha. É impossível falar em ética sem falar em liberdade.

Quem não é livre não pode, evidentemente, ser julgado do ponto de vista da ética. Há quem diga: “eu queria ser livre como um pássaro”; lamento profundamente, pois pássaros não são livres, pássaros não podem não voar, pássaros não podem escolher para onde vão voar, pássaros são pássaros. Se você quiser ser livre, você tem que ser livre como um humano. Nós somos condenados a ser livres.

As nossas escolhas: Quero? Devo? Posso? O exercício da ética pressupõe a noção de liberdade. Ética é exatamente aquelas três questões da vida: Devo, Posso, Quero? Tem coisas que eu devo mas não quero, tem coisas que eu quero mas não posso, tem coisas que eu posso mas não devo.

Nessas questões, vivem os chamados dilemas éticos; todas e todos, o tempo todo. Ética tem a ver com liberdade, conhecimento tem a ver com liberdade, porque conhecimento tem a ver com ética. Por isso, se há algo que também é fundamental quando se fala em ciência, ética na pesquisa e produção do conhecimento, é a noção de integridade. A integridade é o cuidado para se manter inteiro, completo, transparente, verdadeiro, sem mascaras cínicas ou fissuras. O esboroamento da integridade pessoal e coletiva é a incapacidade de garantir que a “casa” fique inteira.

A principal virtude da ética nos nossos tempos, para manter a integridade e cuidar, da casa, da morada do humano, é a incapacidade de desistir, é evitar o apodrecimento da esperança, é evitar aquilo que padre Antonio Vieira apontou, no começo de seus sermões: “O peixe apodrece pela cabeça”.

Tal como algumas pessoas, ele apodrece da cabeça para o resto do corpo…Um olhar sobre a ética em ciência e na pesquisa tem uma finalidade: Manter a nossa vitalidade, manter a nossa vitalidade ética, mostrar que nós estamos preocupados, que a gente não se conforma com a objetividade tacanha das coisas, que a gente não acha que coisas são como são e não podem ser de outro modo, que a gente se rende ao que parece ser imbatível.

Ser humano é ser capaz de dizer não, ser humano é ser capaz de recusar o que parece não ter alternativa, ser humano é ser capaz de afastar o que parece sem saída. Ser humano é ser capaz de dizer não, e só quem é capaz de dizer não pode dizer sim; ai esta a liberdade. Se algum humano não for livre, ninguém é livre, se algum homem ou mulher não for livre da falta de trabalho, ninguém é livre; se alguma criança não for livre da falta de escola, ninguém é livre; a minha liberdade não acaba quando acaba a do outro.

Ser humano é ser junto, e é em relação a isso que vale a pena pensarmos nossa capacidade de dizer não a tudo que vitima e sermos capazes de proteger o que eleva a vida.

A ética é o exercício do nosso modo de perceber como é que nós existimos coletivamente, e então pensar com seriedade naquilo que François Rabelais vaticinou: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam”.

Quero? Devo? Posso?

Referencia: Mario Sergio Cortella – Professor titular do Departamento de Teologia e Ciencia da Religião da PUC-SP.